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quinta-feira, 22 de março de 2012

NIETZSCHE CHOROU?


Dedicar a vida à arte de escrever,
Destilar a vida nos próprios poemas,
Trabalhar dias, meses e anos seguidos nesse dom,
Numa disciplina rígida, com uma vontade inflexível
E, depois não ter ninguém para partilhar.
Mas haverá um dia em que isso
Não terá mais nenhuma importância,
Haverá um dia em que isso me bastará, afinal...

O gosto pela poesia
Fez de mim o que sou hoje
Foi no embalo da poesia
Que me fui apercebendo
De certas sutilezas,
Uma a uma...

Um escritor sem leitores
Numa busca intensa e desenfreada,
Apartado do conforto do rebanho,
Sonhando seus próprios sonhos,
Pensando seus próprios pensamentos,
Escolhendo a companhia própria,
Não desejando ser jamais consolado,
Não desejando jamais ser entendido,
Fazendo de si próprio o único Deus,
Proferindo aos ares suas sentenças de granito,
Saindo sem despedir-se,
Trancando as portas e as janelas
A tudo que vem de fora.

Uma dolorosa arrogância escondendo
Algo mais profundo,
Mergulhando, mergulhando,
Perdendo-se, não desejando jamais emergir.
Voluntariamente construindo
O próprio calvário particular,
Já entrevendo as grades da própria prisão.
Não querendo e, no entanto, querendo.

Pagando o preço da visão interna
Com a visão externa,
Suportando o peso de ser
Humano, demasiado humano...


                                                           Sheila Camargo


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