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segunda-feira, 26 de março de 2012

MAGIA DO DESEJO (PARAFRASEANDO IGNÁCIO DE LOYOLA... TALVEZ)



Falamos o que sabemos, aquilo de que nos lembramos,
E mentimos, porque o desejo não está nas palavras,
Como poderia estar, se dele nos esquecemos?
Escorregou para profundezas, onde palavras não podem ir,
Virou suspiro e gemido, desejo inefável e puro...

Mas um vento o toma em suas asas
E o desejo levado a Deus, como oferenda.
Estranha transação que ocorre
Para além dos limites da consciência,
Sem que nada digamos, sem que nada saibamos,
Sem que a verdade seja escrita ou proferida.

E destas palavras, que carregam o desejo,
Pode-se perguntar: “São verdadeiras?”
Um carinho é verdadeiro?
E uma brisa, uma fonte?
Nosso desejo é amplo demais para nossas palavras
E essa desarmonia, tristeza súbita,
Declaração de amor sem resposta,
Espasmos violentos sobre o corpo desejado,
Janelas que se abrem para o vazio.

Nossos desejos são seres tímidos, ariscos,
Com medo da luz e do sol,
Parecidos com os gnomos das florestas
Que vão aparecendo quando tudo se faz silêncio,
As sombras chegam e os estranhos põe-se a dormir
E é então que eles cantam e dançam e fazem a festa.

A distância também é importante para manter o desejo,
Pois é justamente em meio às suas brumas
Que a saudade desperta, quase acanhada.
Há coisas engraçadas e ternas em nossas nostalgias,
Choramos quando o mundo se enche de ausências
E o desejo não tem o que abraçar e rimos,
Quando vislumbramos entre as ausências
Pequenos fragmentos daquilo por que o desejo suspira.

Um dia, acaba-se o encanto das palavras,
Como névoa que se esvai, mas fica o desejo,
No imenso vazio que se abre,
A nostalgia de cada folha, cada pedra,
Cada chuva que nunca mais...
Tudo entrelaçado, florestas de fantasia...

São palavras de amor, de desejo,
Que não são para ser ditas, pensadas,
Mais se parecem carícias, brisas suaves,
Boas para dormir, para embalar nosso sono,
Para sob sua sombra repousar.
São gestos de amor, de magia, poesia,
Que penetram o corpo, fazem a cabeça,
Embriagam os sentidos...
São suspiros profundos demais para palavras.

Preciso, vez ou outra, cantar a canção do exílio,
Recitar o salmo 113, quando o desejo anda
Por lugares onde o corpo não pode ir.
Quem ama uma ausência tem de abraçar-se a noite
Com a brisa e o silêncio e é doloroso,
Toda dor pede para ser curada
E o exílio passa então a ser o lar esquecido
E a terra prometida.

Mas existe um amor que se recusa a ser consolado,
Prefere as noites solitárias com a brisa e o silêncio,
Recusa aceitar no fim a perda do objeto amado,
Preferível a dor, pois nela se mantém viva
A lembrança do amor.

As pessoas apaixonadas esperam ouvir
As mesmas palavras que a cabeça já sabe,
Mas que a alma sempre bebe de novo
Em ignoradas fontes de ternura.
Cada vez que as mesmas se repetem
Renascem os sorrisos, as lágrimas,
O fascínio, o desejo, o tremor do corpo...


                                                             Sheila Camargo


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